O BEIJO NO ASFALTO : SOB UM SINGULAR MOMENTO DA REPRESENTAÇÃO DE UM CLÁSSICO RODRIGUIANO


O Beijo no Asfalto. Nelson Rodrigues/Dramaturgia. Marco André Nunes/Direção Concepcional. Julho/2026. Lucio Luna/Fotos.


Desde sua estreia em 1960, na memorável montagem do Teatro dos Sete, O Beijo no Asfalto tornou-se um dos mais conceituais exemplares da escritura dramatúrgica de Nélson Rodrigues, sendo uma daquelas de suas criações com maior alcance popular estendendo-se, inclusive, a algumas versões cinematográficas.

Resultado de sua longa trajetória pelas redações na imprensa da época, a peça reflete especularmente seu ofício jornalístico quando atuou em âmbito especifico como repórter. Sobre isto ele deixou uma esclarecedora e singularizada declaração confessional :

Todo meu teatro tem a marca de minha passagem pela reportagem policial. E tanto mais que foi aí que eu conheci o cadáver, porque dos defuntos que eu tinha conhecido, havia uma certa distância entre mim e eles. Eu olhava, mas não me tornava íntimo. Agora, o repórter policial, este sim, torna-se íntimo do cadáver e da morte”.

Aparentemente previsível, em sua cena inicial mostrando um destes meros atropelamentos cotidianos nas ruas de uma cidade, a narrativa desenvolvida pela voz de seus personagens, a partir de um simples beijo de um transeunte na boca de um corpo agonizante, em processo ascendente alcança a dimensão de uma temática sensacionalista.


O Beijo no Asfalto. Nelson Rodrigues/Dramaturgia. Marco André Nunes/Direção Concepcional. Julho/2026. Lucio Luna/Fotos.



Transmutando-a em matéria de capa da imprensa marrom, ao fazer escorrer sangue de suas páginas como  notícia, aproveitando-se da presença testemunhal do repórter Amado Ribeiro (André Mattos) e do delegado policial Cunha (Ernani Moraes). À causa dos acirrados preconceitos e do conservadorismo social, por nunca aceitarem o beijo de um homem em outro homem, ao encarar o fato de forma homofóbica.

Trazendo à vida de Arandir (Eduardo Sterblitch) por seu gesto afetivo, um sequencial tormento no seu ambiente de trabalho e na sua até então tranquila vida doméstica, ao lado da esposa Selminha (Luísa Arraes), de sua cunhada Dália (Nina Tomsic) e do seu sogro Aprígio (Edson Celulari).

Sob uma surpreendente montagem em todos os seus aspectos cênicos, pelo oportuno ideário de Rafael Raposo tanto pela sua abordagem em tempos recessivos, como na acertada escolha de elenco e de seus primados tecno-artísticos, tudo continuado no empenho da artesanal competência da direção por Marco André Nunes.

Onde o espaço cênico (Aurora de Campos) é ocupado de forma minimalista pela mobilidade de apenas uma mesa, sofá e cadeiras que atendem, em processo alternativo, à configuração plena das diferentes ambientações dramatúrgicas. Tornando-se maior a envolvência palco/plateia através de um jogo lúdico, na transparência de painéis verticais e na projeção cinética de fotos e vídeos, aproximando-se referencialmente das plataformas digitais com suas fake news.

Tudo amplificado pelas tonalidades, ora vazadas ora focais, do design de luz (Renato Machado), embora os figurinos (Ronald Teixeira) mantenham um sotaque de época, configurada ainda pela diferencial trilha sonora (Felipe Storino) ao vivo, sob os acordes percussivos de uma bateria e de um baixo acústico.

Quanto ao elenco, os destaques mantendo perceptível unicidade performática imprimida tanto pela potencialidade expressiva dos personagens protagonistas, desde a mordaz atrocidade apresentada por André Mattos e Ernani Moraes, como pela funcional correspondência da intriga em papéis coadjuvantes.

Na ambiguidade da verdade ou da dúvida, tornada primorosa especialmente pelas performances indicativas da psicanalítica repressão de paixões recípocras, sob um sutil eco edipiano, no núcleo familiar - Eduardo Sterblich, Luisa Arraes, Nina Tomsic e Edson Celulari - numa sempre instintiva precisão destes afinados intérpretes no uso de recursos tragicômicos diante do inesperado.

Sendo irreprimível o apuro do comando diretor de Marco André Nunes no dimensionamento dramatúrgico de uma psicofisicalidade assumida tanto nas atitudes e falas atorais, explicitadas pelo primado das ambíguas pulsões sensoriais e culminando no estremecimento provocado pelas surpresas de cada nova revelação. Com O Beijo no Asfalto, enfim, evidenciando uma gramática cênica qualitativa que, sobretudo, configura um destes superiores instantes da arte teatral...

 

                                                 Wagner Corrêa de Araújo

 

O Beijo no Asfalto está em cartaz no Teatro Gláucio Gil/Copacabana, de quinta a segunda-feira, às 20h; até 03 de agosto.

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