MUDANDO DE PELE : O DESAFIO DA RESISTÊNCIA NA BUSCA DE SUA AFIRMAÇÃO COMO UMA MULHER NEGRA




Mudando de Pele. Amanda Wilkin/Dramaturgia. Yara de Novaes/Direção Concepcional. Maio/2026. Nanna Moraes/Fotos.



“Eu preferiria estar em qualquer lugar. Em qualquer outro  lugar do mundo, agora. Do que aqui”, estas são as simbólicas palavras da dramaturga britânica Amanda Wilkin, no prólogo de sua peça Shedding a Skin, de 2020.  Conceituando sua luta para afirmar-se não apenas por sua condição de negritude, como também para seu reconhecimento como dramaturga e atriz-cantora de jazz e blues, entre Londres e Nova Iorque.

Mudando de Pele, mais uma das primorosas traduções de Diego Teza, além de sua habitual descoberta e sugestão de textualidades dramatúrgicas especialmente de origem anglo-americana, teve sua estreia brasileira nos palcos cariocas, numa artesanal montagem com direção concepcional de Yara de Novaes.

Trazendo como protagonista a atriz Taís de Araújo no primeiro monólogo de sua bem sucedida carreira de quatro décadas, pela televisão, cinema e teatro brasileiro. Em espetáculo que tem ainda a participação de Ivy Souza na assistência de direção, além de uma trilha sonora ao vivo com Layla e Dani Negra, esta última acumulando a direção musical.

Onde a dramaturgia mostra as passagens de sua personagem titular, uma mulher negra com cerca de trinta e poucos anos -  Myah (Taís Araújo) -  enfrentando todas os dissabores causados pelo acirrado preconceito racial, desde que abandona a ambiência familiar em busca de seu próprio destino.


Mudando de Pele. Amanda Wilkin/Dramaturgia. Yara de Novaes/Direção Concepcional. Maio/2026. Nanna Moraes/Fotos.


Recém saída de um relacionamento amoroso controverso pede demissão no emprego corporativo após uma manifestação hipócrita de sua chefia pró diversidade, expondo-a ao ridículo num sessão de fotografias entre funcionários brancos.

Até oferecer-se como inquilina para uma velha senhora jamaicana Mildred acabando por se afeiçoar a ela, uma espécie de líder comunitária num agitado prédio de vários andares, no alcance de uma confiança absoluta que de início parecia-lhe impossível.

Em aparente demonstração autoritária da outra geração mas que, no encontro identitário de um legado negro mestiço, cria comovente empatia entre elas. Fazendo de Myah uma outra mulher, ao superar as desilusões do passado, direcionada a uma nova perspectiva existencial.

Pela autoridade cênica de Yara de Novaes vão se tornando esclarecedores todos os consistentes artifícios para sugestionar uma metamorfose na vida excluída de  tantos imigrantes de cor,  como estas duas personagens, ambas assumidas pela mesma atriz.

A começar de um diferencial figurino (Teresa Nabuco) que, dos adereços de uma plasticidade em diversas camadas, vai se decompondo numa perceptível leveza, na proporção em que as coisas vão se transmutando. O que se estende ao sotaque minimalista da caixa cênica (André Cortez) frontalizada por uma abstrata paisagem invernal contrapondo cama, mesa e cadeiras, aqui6 sinalizadas pelas duas instrumentistas  (Layla e Dani Negra).

Em sensitivas variações luminares (Gabriele Souza) vasos com plantas naturais vão trazendo novos ares rompendo a quarta parede, enquanto inspirados acordes tradicionais de uma autêntica kora africana conectam-se a energizadas sonoridades  percussivas.

O sempre cativante apelo performático que Thaís Araújo transmite palco-plateia se torna irradiante num crescendo tragicômico, entre o drama, o riso e a ironia, da melancolia ao júbilo, expandindo-se desde sua firmeza vocal à sua completa adequação psicofísica ao personagem de Myah.

Em momento que exige um grande empenho não só em defesa da mulher negra mas da própria condição feminina, num conceito generalizado, assediada por um machismo tóxico radicalizando-se numa  onda assassina, ampliada pela discriminação racial num meio social de arraigado conservadorismo patriarcal, tornando desta representação de Mudando de Pele,  um instante privilegiado da representação teatral.

Ao imprimir uma lição não só com sua potencial configuração cênica-performática-musical mas, antes de tudo sobre a importância da conexão,  entre a sabedoria de uma geração sobre a que lhe sucede, para escapar das encruzilhadas com  uma nova  pele, portadora da autoconsciência de coragem e confiança para enfrentar o difícil  suporte da condição humana...


                                               Wagner Corrêa de Araújo




Mudando de Pele está encerrando sua rápida temporada iniciada em abril, no Teatro Ginástico/Centro/RJ, domingo 24 de maio, às 17h; seguindo para São Paulo.

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