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DOS A DEUX / CONFUZO : O SENSORIAL PERCURSO DA INVENÇÃO CÊNICA ENTRE A CORPOREIDADE GESTUAL E A PALAVRA POÉTICA


Confuzo - Está Escurecendo Dentro de Mim / Cia Dos a Deux. André Curti/Arthur Luanda Ribeiro/Criadores-Intérpretes. Julho/2026. Renato Mangolin/Fotos.


Uma das mais surpreendentes revelações das artes cênicas brasileiras nos primeiros 25 anos do terceiro milênio é, sem dúvida, a proposta estética e conceitual de uma Cia idealizada, desde a sua origem, entre duas nacionalidades  e dois continentes  -  a Cia Dos a Deux.

Pela convicta entrega de seus dois criadores - André Curti e Arthur Luanda Ribeiro - que, ao mesmo tempo, se apresentam como os encenadores e os intérpretes de obras concebidas, sob o caráter exclusivo do formato dúplice, para uma diferencial trupe.

Tendo ambos se conhecido em Paris, quando lá se empenhavam na busca de um ofício metaforicamente emblematizado, em sua brasilidade, pelo signo roseano da criação, querendo, com certeza, “decifrar as coisas que são importantes”, como propugnava o Rosa da prosa.

Através de um legado inventor universalista conectando Paris e Rio de Janeiro, sem esquecer a natalidade angolana de Arthur sinalizada, inclusive, na adoção de Luanda em seu sobrenome. Sequenciados, assim, por um repertório singular, no ousado projeto integração da dança, teatro, mímica e música, além de efeitos cinéticos no entremeio da plasticidade presencial, em linguagem artística plena de poesia.


Confuzo - Está Escurecendo Dentro de Mim / Cia Dos a Deux. André Curti/Arthur Luanda Ribeiro/Criadores-Intérpretes. Julho/2026. Renato Mangolin/Fotos.


Surpreendendo, sempre, desde o Festival de Avignon a outras apresentações em países diferentes, lá e cá em palcos diversos, entre idas e vindas, com obras nas quais  prevalecia a linguagem corporal sintetizada sob um sotaque de teatro coreográfico, abstraindo-se das palavras verbalizadas entre simbólicos silêncios.

E nestes últimos anos estabelecendo suas bases didáticas de  ensaio e criação em estúdio-escola no bairro carioca da Gloria, colaborando para um convívio mais próximo com a formação de discípulos e no contato com o universo cênico brasileiro, sem abandonar as turnês além-mares.

Extremamente potencializada em reveladoras criações autorais e performáticas como Fragmentos do Desejo, Irmãos de Sangue a outras mais recentes como Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes, indo cada vez mais longe em sua pesquisa de uma psico-fisicalidade estética.

Capaz de referenciar princípios freudianos onde “o pensamento virtual se aproxima mais dos processos inconscientes que o pensamento verbal”, como chegamos a enunciar em análises criticas anteriores de alguns espetáculos arquitetados com a personalista expressividade da Cia Dos a Deux.

E, agora, através da estreia de Confuzo - Está Escurecendo Dentro de Mim - sempre mantendo sua pulsão por novas descobertas pictóricas-coreográficas e, pela primeira vez, recorrendo ao uso da palavra em similar paralelismo com a performance gestual.

Definida por seus mentores artísticos e simultâneos intérpretes como um “território poético”, sua exploração convoca a uma imersiva releitura, por sua inserção de uma textualidade dramatúrgica ao dimensionamento gestual, podendo ser apreendida como questionadora, enquanto conduz a uma reflexão  filosófica, político e social.

Por intermédio de uma paisagem cênica em meio ao encontro de dois enigmáticos personagens – o Homem-Árvore (por André Curi) e o Homem-Luz (por Arthur Luanda Ribeiro) inseridos num espaço simbólico, com um referencial ritualístico, no seu desdobramento plástico entre o pertencimento e a recusa. Um insistindo em enraizar-se enquanto seu grito é impedido, no confronto com o outro que, no pedalar contínuo de uma bicicleta, vai  gerando luz e movimento.

Onde o design das peças indumentárias (Karen Brusttolin) e a envolvência dos acordes musicais, na habitual solidez investigativa das impressivas composições de Federico Puppi, proporcionam, junto às indagações metafísicas da proposta, uma viagem pelos espaços siderais da mente.

Com o seu dimensionamento de um meta-expressionismo, abstrato e metafórico, sustentando um corpo-ação e um corpo-linguagem que dialogam com o espaço. Artífices de uma criação cênica sob o primado do sensorial que se articula com o desafio de ser uma obra aberta à leitura de cada espectador, em transcendente manifestação estética da Cia Dos a Deux  na arte de representar...

 

                                            Wagner Corrêa de Araújo

 

Confuzo-Está Escurecendo Dentro de Mim / Cia Dos a Deux está em cartaz no Teatro I do CCBB/RJ, quintas e sextas, às 19h;  sábados e domingos, às 18h; até o dia 26 de Julho.

CIA DOS A DEUX : EM MAIS UM MERGULHO ABISSAL NO IMAGINÁRIO ONÍRICO

Enquanto Você Voava, Eu Criava Raizes. Cia Dos A Deux. Setembro/2022. Fotos/ Renato Mangolin.


A partir da solidão opressiva, mas ao mesmo tempo reflexiva, a que fomos submetidos, como se condenados fossemos a uma prisão domiciliar durante o tempo pandêmico, estabeleceu-se um interregno questionador em nossas vidas, sinalizado pelo estigma de que poderíamos ser ou não a próxima vítima fatal.

Que se refletiu especularmente em cada um de nós em dimensionamentos diferenciais, mas sempre carregados por uma dose de expectativa para entender, no entremeio de temores e sombras, o real sentido daquela instantânea situação em seu vislumbre do quão difícil é o suporte da condição humana com sua perspectiva de terminalidade.

Com esta passagem dramática em nossas trajetórias existenciais, os múltiplos artistas André Curti e Artur Luanda Ribeiro, mais uma vez acionaram sua pulsão inventiva, situados na confluência de linguagens artísticas do teatro à dança, para retomar o imaginário onírico que vem marcando suas criações, ao longo dos anos, através da Cia. Dos a Deux.

Agora, com a proposta de também mostrar sua concepção conceitual, sob introspectivos gritos de silencio expressos por visceral abordagem gestualista, em sua mais recente realização cênica, simbolicamente denominada Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes.

Em análise critica que postamos à época, sobre o último trabalho apresentado em palcos brasileiros – Irmãos de Sangue, fizemos questão de ressaltar a transmutação permanente de um principio freudiano nas criações da Cia. onde “o pensamento virtual se aproxima mais dos processos inconscientes que o pensamento verbal”.


Cia Dos a Deux/Enquanto Voce Voava, Eu Criava Raízes. Setembro 2022. Fotos/ Nana Moraes.

Na circularidade de um vocabulário  plástico/cinético capaz de remeter, ora a um formato de conotação ritualística e mais lúdico em sua estruturação caleidoscópica, propiciadora de uma sucessão psicodélica de imagens superpostas.

Ou com um referencial cenográfico ao icônico desenho o "Homem Vitruviano", de Leonardo da Vinci. Pela simétrica sugestão imagética de um corpo humano masculino desnudo, desdobrando seus braços e pernas num retrato plástico, situado entre um círculo e um quadrado, que é  a terra e também o céu.

Aqui, como se fora apenas uma a corporeidade dos dois atores/bailarinos (André Curti e Artur Luanda Ribeiro) simultaneamente, segundo a noção alquímica, no ideário do que está por cima é igual ao que está por  baixo, tocando-se nos pés e nas mãos, enquanto os braços alongados por suportes criam uma delirante visualidade, na sequencial sucessão gestual/coreográfica de um instante que conduz sensorialmente a outro.

Ressaltados por efeitos luminares (Artur Luanda Ribeiro) sob a prevalência de sombreamentos, entre tonalidades pictóricas metaforizadas, com pinceladas virtuais  por vezes abstratas ou com sotaque pontilhista, na cena de gotas de água preenchendo o espaço cênico.  

Sempre, em alucinantes inserções visuais, a partir do uso dos elementos materiais (por Diir) e videográficos (Laura Fragoso). Alternando-se um figurativismo indumentário (Ticiana Passos) com o desnudamento corporal dos performers. Havendo que se destacar a impactante e qualificativa originalidade da partitura sonora de tessitura erudita, pelo compositor e instrumentista Federico Puppi.

Capaz de proporcionar em suas ondas sonoras graves, entre acordes melancólicos, uma envolvência emotiva levada à sua culminância em apoteótico rufar percussivo. Este jovem compositor cada vez mais surpreende com suas buscas inventivas que o aproximam dos experimentos musicais, com um minimalismo libertador, do estoniano Arvo Pärt.

Provocadora e imersiva, da enérgica fisicalidade à introspectiva proposta, a escritura gestual de Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes, faz com que seus criadores – André Curti e Artur Luanda Ribeiro – a compartilhem com o espectador como uma obra reflexiva aberta à fruição intimista de cada um. E capaz, assim, de ecoar o emblemático mistério de Clarice Lispector – “Ouve-me, ouve o meu silencio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa”...

                                          Wagner Corrêa de Araújo

  

Enquanto Você Voava, Eu Criava Raizes/Cia Dos A Deux está em cartaz no Oi Futuro/Flamengo, de quinta a domingo, às 20h. Até 25 de setembro

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