FOCUS CIA DE DANÇA REESTREIA CINEQUANON : ENVOLVENTE CONEXÃO ENTRE DUAS LINGUAGENS ARTÍSTICAS - A DANÇA E O CINEMA

Cinequanon/Focus Cia de Dança. Alex Neoral/Concepção Coreográfica/Direcional. Maio/2026. Rafael Catarcione/Fotos.

 

A imagem-movimento e a imagem-tempo, conceitualizadas por Gilles Deleuze em seus estudos sobre o “cinema do corpo”  repercutem, na contemporaneidade,  a estreita relação entre a dança e o cinema.

Desde a inicialização cinematográfica, com suas primitivas experimentações de uma fotografia em “real motion” nas Serpentines Dances (inspiradas pela coreógrafa/bailarina Loïe Fuller) até a ousada animação do Pas de Deux, de Norman McLaren (1968).

Sem esquecer as primeiras interferências fílmicas nos anos vinte do Ballet Mécanique  (Fernand Léger) ao Entr’acte (René Clair) além do ballet dadaísta Relâche  de Francis Picabia. E, mais tarde, nos efeitos/cinema, da concepção coreográfica/teatral de Pina Bausch ao mix de takes reais e digitais nas criações da vídeo/dança.

Numa singular proposta de inversão da tela para o palco, a recente reestreia de uma criação de 2016, da Focus Cia de Dança, através de seu criador/mor Alex Neoral, ressignifica a expressão latina da essencialidade no substitutivo vocabular de “sine” para  a titularidade do seu Cinequanon.


Cinequanon/Focus Cia de Dança. Alex Neoral/Concepção Coreográfica/Direcional. Maio/2026. Rafael Catarcione/Fotos.

 


Com seu referencial ao cinema por gêneros, figurinos, trilhas, cenas, títulos, o espetáculo transforma o palco numa tela viva. E, assim, impulsiona uma trajetória do olhar entre o sensorial onírico e a percepção imagética-sonora dos elementos técnicos, oriundos de uma câmera metafórica em percurso coreográfico.

Na sua retomada documental fílmica que na primeira versão, às vezes, por um excesso de frases (coreo)cinéticas confundia  a apreensão do écran mental de cada espectador, Cinequanon, mantendo suas linhas estéticas básicas, concretiza, por outro lado, uma inusitada experiência de filme cênico/performático.

Onde se destaca a presencial fisicalidade dos bailarinos (Afonso Gondim /Bianca Lopes/Bruno Feliciano/Carolina de Sá/Cosme Gregory/Guilherme Nunes/ Olívia Pureza/Paloma Tauffer/ Wesley Tavares / Yasmin Mattos)  em elenco diferencial dez anos depois, mas sempre com elegante e instintiva gestualidade, na sua entrega a  um lúdico, enérgico e envolvente jogo cinético/teatral .

Uma outra geração da Focus Cia de Dança revelada,  preenchendo  com assumida consistência o espaço cênico (Márcio Jahú), completado na sintonia das texturas  dos figurinos (André Vital/Mônica Burity) com os efeitos especiais óticos induzidos por um potencial desenho de luz (Binho Schaeffer), ao lado da recriação, entre ruídos, fraseados e citações incidentais, de um amarrado score de trilhas sonoras.

Alex Neoral sabendo como bem explorar o palco com preciso sincronismo orgânico dos  códigos do cinema e da  dança, enquanto faz girar sua “câmera coreográfica” no alcance de  tomadas de ângulos diversos, da projeção de grandes closes a planos gerais interativos palco/plateia, quebrando a quarta parede em aproximativo jogo com cada espectador.

Esta incursão cinema>dança>tela>palco, propõe outras leituras numa espécie de obra aberta na decifração da decupagem de um fragmentário legado fílmico, como um balé de "planos-sequência". Podendo ser atribuído a Cinequanon, através desta proposta de peça coreográfica com referencial fílmico, um resultado dziga vertoviano de "eficaz coreografia dirigindo e mediando o olhar do espectador pela câmera".

 

                                                     Wagner Corrêa de Araújo

 

Cinequanon / Focus Cia de Dança está em cartaz no Teatro Carlos Gomes/RJ,  de quinta a domingo, às 19h; até 07 de junho.